Comida em guerra

Senhores passageiros, sejam bem-vindos ao aeroporto clandestino emergencial dos Estados Unidos da América na cidade de Bagdá.

gomo guerra
...tiiiituuu...“- Senhores passageiros, sejam bem-vindos ao aeroporto clandestino emergencial dos Estados Unidos da América na cidade de Bagdá. Por Favor, mantenham seus cintos de segurança fechados até a parada completa da aeronave. Os tanques, mísseis, bombas, armas de mão e aparelhos GPS estarão à sua disposição na esteira dentro de alguns minutos. Para seu conforto lembramos que a filial Iraquiana do McDonald’s estará aberta 24 horas neste período de ataques intensos. Esperamos que vocês tenham feito uma boa viagem e agradeçemos a preferência por viajarem com as Forças Aéreas Nacionais”. Tiiiiituuuuuu...

Não. Não é assim, ainda, que funcionam as coisas com o exército da terra do Tio Sam. Mas não está muito longe disso. Os soldados recebem comidinhas com gosto de isopor, em saquinhos pardos e envoltas por muito marketing.

Um exército é um grupo de gente sob muita pressão e péssimas condições de vida, portanto seus superiores se preocupam em promover um senso de aconchego. Comer é extremamente aconchegante e prazeroso, por isso há uma grande preocupação com a qualidade da comida que é servida às tropas.

Sempre que possível tenta-se levar ao estômago do soldado o gostinho da comida que ele sente na terra natal, ou adaptar os ingredientes locais à receitas de casa. Porém levar a comida pronta na bagagem é sempre mais seguro, pois nunca se sabe se o povo do local a ser invadido pelo exército está ou não conspirando contra a guerra (e uma infecção alimentar em massa pode acabar com qualquer guerra).

Mesmo sem conspiração, muitas vezes os estômagos não se acostumam bem com comidas estrangeiras, ou têm a má sorte de dar de boca com alguma doença incomum na terra natal – como aconteceu ao exército britânico em Paktia, no Afeganistão, em 2002.

Por essas e outras sabe-se há décadas que a alimentação militar é um fator decisivo em batalhas.

Comida antiga em guerra

Quem deu notoriedade à comida de guerra foi Napoleão Bonaparte, que perdeu a guerra pelo estômago de seu exército e cunhou a célebre frase: “Um exército viaja pelo seu estômago”. Mas muito antes da França aprender pelos seus erros, o Tibet aprendeu acertando.

Por estar localizado em região geográfica de clima frio, os grãos armazenados no Tibet duram mais tempo. Em épocas longínquas em que a preservação da comida era precária, essa vantagem geográfica fez daquela terra uma bem sucedida fábrica de soldados, tal qual um bom viveiro com alimentação suficiente para milhares de ovelhas e cavalos. Os animais acompanhavam os comboios de soldados até terras distantes e serviam de comida aos homens em guerra.

No Tibet a comida fazia o exército. O caso Napoleão foi oposto ao do Tibet, ele tinha um mega-exército, mas quando alcancou a neve a caminho da Rússia a comida acabou. Os bois que acompanhavam os soldados (pois não havia ainda métodos de guardar a carne e por isso a comida era morta na hora) ficavam magros com tanta caminhada e tinham que disputar pasto com os bichos da cavalaria. E foi assim que Napoleão perdeu a guerra.

Comida preservada em guerra

Há um tempão o sal costumava ser um artigo alimentício caro e de luxo, o que tornava impossível usá-lo em quantidades adequadas à preservação de comida. Isso fazia com que o exército carregasse junto ao comboio os bois e vacas e ovelhas e afins. Com o passar do tempo foi-se estudando e inventando soluções para o problema do armazenamento de gêneros alimentícios. Uma das invenções mais úteis foi a lata, um barril aperfeiçoado que não molha como a madeira e nem deixa o ar entrar.

Antes do, ou durante o, processo de enlatamento a lata é fervida com a comida dentro. Isso faz morrerem os micro-bichos que fazem mal à saúde humana, fazendo, consequentemente com que a comida dure um tempo longo dentro da lata.

Durante a segunda guerra mundial (por volta de 1940) as latas foram as grandes vedetes dos exércitos e facilitaram a valer a vida dos soldados. Porém a lata ocupa muito espaço, pesa demais e não resiste bem ao ser jogada do alto pelos aviões encarregados de prover os mantimentos aos homens em batalha.

Por isso desenvolveram, há um par de décadas, um novo tipo de embalagem que, após testado no espaço e em guerra, pode ser visto em prateleiras de supermercado embalando comida molhada de gato em saquinhos.

Essas novas embalagens são um tipo de lata flexível, já que possuem as mesmas boas propriedades da lata e passam pelo mesmo processo de embalamento sob altas temperaturas para matar bichinhos maus à saúde humana e à conservação do alimento, fazendo com que a comida embalada dure cerca de 3 anos em temperatura ambiente – ou quase dez se refrigerada. Por serem flexíveis, essas embalagens novas aguentam melhor quando são jogadas dos aviões e também cabem mais fácil nos bolsos dos uniformes dos soldados.

Comida em indústria de guerra

A desvantagem dessas comidas práticas, prontas e individuais, sob o MEU ponto de vista, é os soldados comerem sozinhos, cada um no seu canto as suas rações individuais, na hora que cada um deles bem decidir. Antigamente ao fim do dia todo o batalhão se reunía em volta do fogo para desfrutar junto a papa.

Mas enfim, resolvidos, os problemas com as comidas no campo de combate, o exército americano começou a produzir as grandes quantidades necessárias para a batalha que tinham em vista, a de 1992 no Golfo Pérsico. Para suprir a demanda pediram ajuda a algumas indústrias alimentícias; a Wornick especializou-se nos pratos embalados na lata mole, a Hershey’s criou uma barra de chocolate especial para suportar as temperaturas elevadas do deserto sem derreter e a fábrica do molho de pimenta Tabasco passou a produzir pequenos potinhos plásticos contendo uma só porção e que acompanham cada uma das refeições de cada um dos soldados. É provável que haja mais grandes nomes da indústria de alimentos por trás do preparo das refeições de guerra do exército dos Estados Unidos da América.

Cada pacote de comida vem com uma entrada, um prato principal, docinhos de marcas conhecidas de sobremesa, talheres plásticos e lencinhos umedecidos para limpar as mãos. Cada pacote serve uma refeição (café da manhã, almoço ou janta) para um soldado e custa cerca de USD 7,00 (sete dólares americanos).

Agora pense. O governo norte-americano gasta sete dólares por refeição por soldado, dinheiro esse que vai para alguma empresa particular que só se importa com o bem-estar do próprio bolso. Tendo o bolso da empresa em mente, os empregados que negociam com o governo com certeza devem fazer contratos para garantir o negócio antes de começar a cozinhar um montão valioso de comida que estraga.

Será que não estão juntando o útil ao agradável quando inventam motivo para guerra?







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