Minha sobrinha odeia badejo. Imagino eu que seja por causa da consistência ou da repetição da mesma receita com tomates e batatas que é freqüente no cardápio da família, já que todos os outros habitantes da casa gostam muito de badejo. Mas o fato é que ela odeia mesmo badejo. Muito mais que quiabo.
Tenho essa curiosa mania de ver a cara daquilo que eu como. Adoro saber que folha que é a da cenoura, qual planta que é a mandioca, até que altura sobe a trepadeira que dá o chuchu e qual o tamanho das bochechas do bacalhau.
Achei então fotos de
badejos e mostrei à sobrinha a cara do seu desafeto. Eu e ela concordamos que ele é um peixe deveras simpático! Muito mais bonitinho que o
salmão ou o
atum, eu opinei. Ela concordou e disse que achava o atum um peixe muito fininho. De jeito nenhum! Insisti eu, já que o atum é um peixe muito grande e gordo!
Eu passei minha infância inteira acompanhando meu pai de madrugada nos fins de semana até o CEAGESP, só para assistir os
peixeiros destrincharem os atuns gigantes com uma destreza invejável e uma rapidez magnífica! Não podia imaginar que minha sobrinha nunca tivesse visto um atum de verdade cara-a-cara. Mas ela nunca tinha visto o peixão e achava-o fininho.
Mostrei fotos de atuns e ela desacreditada disse que aqueles eram tubarões, insistindo que o atum era um peixe pequenininho e fininho, e ameaçou pegar a lata em que vinha o atum para me mostrar a foto dele.
Contei então o episódio para o meu pai que, descrente da cultura de supermercado incrustada na neta, levou a pimpolha no dia seguinte até o CEAGESP e fez com ela uma excursão até dentro do caminhão refrigerado da Dona Marisa (a peixeira da família). Lá a Dona Marisa puxou um atum do tamanho da minha sobrinha - cerca de 1,30m e quase 8 anos de idade - que viu que o atum verdadeiro é grande mesmo e que a foto da latinha não condiz com a realidade do mega-
peixão.
Chegando em casa perguntei pra ela se estava convencida vez por todas do tamanho gigantesco do atum e pra minha surpresa ela respondeu: “- Ou ele é muito grande ou eu é que sou muito pequena!”
Esperta ela! Crianças são mágicas. Se pensarmos em outros e seres marinhos, como a baleia, o esturjão e os tubarões, temos que concordar com a sobrinha. O atum nem é tão grande, nós é que somos bichos pequenos.
Atum em crosta de gergelim e purê de ervilhas com gengibre
Atum
- 1 peça grande de atum
- gergelim para cobrir a peça
- 1 gema de ovo
- 1 colher de chá de óleo de gergelim
- sal e pimenta branca
Faça uma mistura com os gergelins, o óleo o sal, a pimenta e a gema. A gema não deixa a mistura muito bonita, mas é a mesma proteína que existe no peixe, a albumina, e fará os gergelins grudarem. Passe a mistura em volta do peixe e leve para assar em forno preaquecido BEM quente por cerca de 10 minutos, ou mais dependendo do seu gosto, para que o peixe asse por fora e fique cru no centro. Sirva com um pouquinho de shoyu.
Importante: compre o atum fresco em alguma peixaria/feira confiável, pois ele ficará um pouquinho cru e o risco de contaminação por microbichos nocivos é grande.
Purê
- 1 lata de ervilhas
- ½ colher de sopa de manteiga
- creme de leite ou leite
- wasabi em pasta
- sal
Aqueça a manteiga e jogue as ervilhas, sem aguinha, na panela/frigideira para tirar o ar de lata. Esmague as ervilhas passando as por um grande coador, para tirar as peles. Retorne o purê ao fogo, acrescente o creme de leite ao poucos, até conseguir a consistência de purê cremoso. Coloque o wasabi a gosto (ponha aos poucos e vá testando, para saber qual é o seu gosto), ajuste o sal e pronto.
Dica: este purê fica bem melhor se feito com ervilhas frescas. Neste caso, cozinhe as ervilhas no vapor e pule a parte da manteiga, indo diretamente do vapor para o esmagamento.
Coluna publicada em 2003 na Mixirica antiga. Hoje a sobrinha já tem quase 11 anos. Reproduzida aqui para a amiga Danny.