Durante a época boa em que eu passava as tardes cozinhando com colegas na faculdade de gastronomia as coisas funcionavam assim: Todos os alunos recebiam os mesmos ingredientes, nas mesmas quantidades e tinham na apostila a mesma receita com a mesma ficha técnica de cada preparo.
Cada um preparava seu prato e ao final da aula tínhamos mais de 20 versões do mesmo prato. Cada uma diferente da outra. A aparência, o gosto, a apresentação. Nem que quiséssemos, era impossível fazer tudo igual.
O sal pode ser o mesmo, mas o tamanho do dedo que vai medir a pitada é único e tem sua própria impressão digital. E se as digitais influenciam na aderência do sal ao dedo?
Em restaurantes este é um desafio. Cada funcionário tem seu jeito de cozinhar, mas os clientes querem sempre o mesmo gosto quando pedem
aquele prato. Os únicos que conseguem padronizar os gostos, e infelizmente até exportar um padrão, são os gigantes. A indústria da alimentação, que tem quantidades de sal e temperos medidas em quilos e mandam tudo congelado para suas filiais.
Em quantidades normais, a precisão é um desafio e um mal a ser evitado, por que na diferença é que mora a beleza das coisas, a unicidade de cada momento. Mesmo que seguida à risca uma receita, se a fôrma em que o bolo for assado for diferente da original o resultado final não vai ser o mesmo, pode ser mais sequinho, mais dourado e, por que não, mais gostoso.
Quando foram servidas receitas de minha autoria no lançamento do livro que as continha me deparei de novo com essa realidade. No pratinho servido estavam todos os ingredientes que eu listei nas páginas, mas a aparência era completamente diferente da que eu vi na minha cozinha.
Na ocasião, não experimentei os quitutes, pois não queria correr o risco de receber cumprimentos com um pedaço de pistache tinindo no meio do dente, mas aposto que o gosto era outro. Mesmo assim, a receita recebeu inúmeros elogios.
Por todas as variáveis que imperam na equação de uma receita é que tenho a convicção de que cada refeição deve ser apreciada como se fosse a última – o que é ótimo de se pensar se a comida estiver ruim.
Mesmo os pratos divinos do seu restaurante preferido podem um dia não sair mais iguais se mudarem de cozinheiro ou fornecedor. Aquele cachorro-quente de barraquinha que te dá tanto prazer no meio da madrugada pode mudar de endereço de um minuto pro outro e te deixar órfão e faminto.
Cada bocado que se leva à boca merece a atenção dos seus sentidos. Merece ser apreciado como o último desejo dum condenado à cadeira elétrica, ou à forca (o que será que o Saddam vai querer comer?). Por que no fundo, bem no fundo, sabemos que o futuro a Deus pertence, seja qual for o seu Deus, e aquele bocadinho que você discplicentemente engoliu pode sim ser o último. Aproveite ele muito bem.
Mikusu Udon
Um prato que dificilmente sai igual duas vezes...
- meio pacote de udon
- 1 pacote de
tikuwa
- 150g de camarão limpo
- 1 bandeijinha de shiitake
- cebolinha cortada em tiras
- 1/2 xícara de saquê culinário
- 2 colheres de sopa de molho de ostras
- shoyu a gosto, o seu gosto
- um pouquinho de óleo de girassol, o quanto seu olho quiser
- um punhado de broto de alfafa, do tamanho exato da sua mão
Em uma panela, ferva água e cozinhe o udon conforme as instruções da embalagem. Escorra, passe na água fria e reserve.
Em uma frigideira grande ou wok, aqueça o óleo de girassol e acrescente o shiitake e em seguida o tikuwa, cortado em rodelas. Deixe dourar um pouco, coloque os camarões e doure também. Junte o udon cozido, o sakê e o molho de ostras. Misture tudo e finalize com a salsinha, o broto de alfafa e o shoyu. E coma saboreando, por que nunca mais vai ter outro igual.