Eu odeio banana. O cheiro da fruta já me é nauseante. Todas pessoas que descobrem meu ódio à banana torcem o nariz, olham torto e tentam me fazer amá-la. Impossível! Gosto não se discute! Cada pessoa sente o gosto de modos e em situações diferentes e isso torna cada sabor peculiar a cada língua, a cada cultura, a cada rotina. Para fazer com que parem de me falar maravilhas sobre a (blearght, Hugo) banana, eu chamo minha mãe.
Mamãe tem uma teoria sobre minha aversão à fruta típica brasileira: com poucos meses de vida eu recusei todo e qualquer tipo de leite, o que levou o pediatra receitar à Dona Dina papinhas de leite em pó com frutas ou iogurtes e graças a isto cresci gordinha, rosada e saudável. Porém a overdose de papa de banana, ou a má associação da fruta ao leite, influenciou para sempre minhas preferências alimentares. Desde minha tenra infância, não lembro de ter descascado uma banana e comido em nenhuma ocasião, apesar de lembrar da insistência da Dina em fazer saias rodadas com as cascas e girar a banana bailarina na tentativa de me convencer que era uma fruta divertida que queria ser comida.
Contrário ao meu ódio à banana pop é meu amor pelo vilão sangrento das lembranças gastronômicas de infância. Amo de paixão bife de fígado com muito alho e muita gente torce o nariz, tapa a boca e segura o estômago só de ouvir f-í-g-a-d-o. Eu comia semanalmente, aos sábados pela manhã, depois de ajudar meu pai a fazer a feira e considerava um grande prêmio por ter cumprido a divertida tarefa de levar o carrinho ladeira acima e organizar os vegetais e frutas cuidadosamente para não amassarem. Mamãe ganhava flores e eu fígado! (nota da autora: apesar de sempre ficar em casa dormindo nas manhãs de sábado, mamãe nunca deixou de ganhar flores. Porque mãe a gente só tem uma e deve mimar ao máximo).
Prêmio melhor que este só se algum dia eu pudesse comprar um daqueles brinquedos de suco, sabe? Eu sempre quis um daqueles. Um jacaré vermelho ou um revólver laranja ou um cacho de uvas roxo. Mas nunca nem experimentei, já que diziam que aquilo era nojento e feito num fundo de quintal, com a água da torneira, ou pior, da chuva, misturada com corante e açúcar e porcamente enfiada nos plásticos sujos retorcidos. E daí? Eram coloridos, divertidos e todas as outras crianças na feira estavam tomando!
Frustrações de infância, alegrias e hábitos. A predileção por certo sabor vai muito além da fisiologia da língua e do funcionamento das papilas gustativas, que, diga-se de passagem, perdem a sensibilidade com o passar dos anos - e por isso crianças são mais sensíveis a sabores picantes e idosos usualmente tomam café o mais quente possível.
As influências sociais, o seu humor quando experimentou algo pela primeira vez, o ambiente agradável ou o fedor de carcaça de peixe, tudo vai fazer com que goste ou não disso ou daquilo. No que muitos vêem a alegria da Carmem Miranda, brilhando no alto de suas plataformas e afirmando "-Yes! Nós temos bananas!"; eu vejo a papa fedorenta de leite em pó.
Quando eu lembro dos sábados felizes que passava com meu pai querido, o gosto que me vem à memória é o do bife de fígado. Para a multidão que despreza o fígado, a imagem que deve vir à cabeça é a da tia velha chata enfiando a gororoba na garganta dizendo "-Come que tem ferro", e você pequena criança inocente pensando na bigorna que ia cair na sua cabeça no momento que engolisse aquele engodo.
A lembrança de ontem influencia a experiência de hoje, o sentimento toma o lugar da sensação e faz você enxergar do seu modo, pessoal e intransferível, tudo o que vê. O que para alguns é só cor ou sabor, para outros é trauma de infância. Você vê a figura enquanto eu vejo o fundo, como no
desenho da moça e da velha, quem você vê primeiro pode não ser quem eu vejo.
Por isso, gosto não se discute. Nos limitamos a comentar e lamentar. Então, por favor, levem as bananas para longe de mim e me deixe comer com gosto meu bife de fígado com muito alho e, quem sabe, tomar um suco de água suja num bicho de plástico para acompanhar…
Folhado de fígado
3 bifes de fígado pequenos e bem finos
massa folhada pronta laminada
muito alho
folhas de sálvia
azeite
sal e pimenta
½ xícara de cerveja
2 cebolas grandes
Aqueça uma frigideira. Quando estiver muito, mas muito quente, derrame um puquinho de azeite e coloque os bifes. Doure dos dois lados, para selar. Retire os bifes da frigideira e reserve. Na mesma frigideira, toste os alhos bem dourados.
Abra a massa e coloque algumas folhas de sálvia sobre ela. Coloque os bifes sobre as folhas, bem juntinhos. Cubra com o alho e tempere com sal e pimenta. Enrole firmemente a massa com os bifes dentro. Leve ao forno médio, preaquecido, e deixe lá até dourar levemente.
Enquanto assa a massa, corte a cebola em fatias finíssimas e coloque na frigideira com azeite. Deixe dourando em fogo baixo. Quando já estiverem com alguma cor, derrame a cerveja e mantenha no fogo até secar e dourar. Tempere com sal e sirva com fatias grossas do folhado de fígado.
texto originalmente publicado em 22/09/2002 na Mixirica antiga, mas a receita é novinha em folha